Guia
Quanto cobrar para gerenciar redes sociais: um método em cinco passos
Como calcular quanto cobrar para gerenciar redes sociais: custo por hora, escopo, número de posts e reajuste. Com exemplos e erros que corroem a margem.
Por Eduardo Brandão, Fundador do Mesaas · 27 de julho de 2026 · 9 min de leitura
Existe um jeito rápido de chegar ao primeiro preço: perguntar num grupo, escolher o menor número que apareceu por medo de perder a proposta e passar doze meses descobrindo que a conta consome o triplo do tempo previsto.
Este guia não traz tabela de mercado. Eu não fiz essa pesquisa: o preço sai do seu custo, das suas horas e do escopo que você aceita — três coisas que nenhuma média nacional conhece. Fora o imposto, que depende do seu regime, todo número daqui é invenção minha, escolhida para deixar a conta visível; troque cada um pelos seus e o método devolve um valor que você defende linha por linha.
Os três modelos de cobrança
Pacote mensal. Valor fixo para um escopo definido, e o único que sustenta uma operação. Arrebenta quando o escopo não está escrito: mensalidade vira disponibilidade.
Por hora. Você fatura o tempo gasto. Parece justo e pune a sua eficiência: quanto melhor você fica, menos recebe pela mesma entrega. Encaixa no pontual: consultoria, lançamento.
Performance. Amarra o pagamento a um resultado que quem executa não controla: produto, preço, atendimento. Se for adotar, use como bônus sobre um fixo que já paga suas contas.
O arranjo que se defende sozinho: fixo mensal como base, hora para o extra, performance como bônus. O resto do guia calcula o fixo.
Passo 1: descubra seu custo por hora
Antes de saber quanto cobrar, saiba quanto custa uma hora sua: o piso abaixo do qual todo contrato tira dinheiro do seu bolso. São três números.
Custos fixos: tudo que sai da conta todo mês mesmo sem cliente novo — assinaturas, contador, internet, banco de imagens, energia.
Retirada desejada: o que você quer tirar por mês, líquido, não o que hoje sobra.
Horas faturáveis: não são as horas trabalhadas. Prospecção, proposta, cobrança e estudo não entram em fatura nenhuma.
Exemplo: custos fixos de R$ 3.200 por mês somados a uma retirada desejada de R$ 7.800 dão R$ 11.000 que o mês precisa gerar.
Trabalhando 8 horas por dia em 20 dias úteis, o mês tem 160 horas. Se prospecção, administração e estudo comem 60 delas, sobram 100 horas faturáveis.
R$ 11.000 divididos por 100 horas: custo-hora de R$ 110. Falta o imposto, e a alíquota depende do seu regime — supondo 6% sobre o faturamento só para fechar o exemplo, divida por 0,94 e chegue a R$ 117,02, ou R$ 117 na ponta do lápis.
A alíquota é a única entrada que você não inventa: pergunte ao seu contador qual é a sua, porque o divisor muda com ela. E quem paga um valor fixo por mês, e não um percentual, soma esse valor aos custos fixos em vez de dividir.
Esse número não é o seu preço: é o seu zero. Preço é custo mais margem.
Passo 2: estime as horas reais de cada cliente
É aqui que a margem morre. Quem orça uma conta soma o que produz — roteiro, arte, legenda — e ignora o que existe em volta. Esse trabalho invisível é o serviço; só não aparece no orçamento.
Faça duas listas. As horas visíveis, de que todo mundo lembra: roteiro, texto, edição, revisão interna. E as horas invisíveis:
- Briefing e recontextualização. A conversa inicial e as vinte vezes em que você reabre o material da marca para lembrar por que aquele tom foi escolhido.
- Rodadas de aprovação. Cada retorno é ler, interpretar, refazer, reenviar e conferir se voltou aprovado. Quinze minutos por rodada é conservador, e prever uma só rodada é orçar o melhor caso.
- Reuniões. A mensal de alinhamento, a extra do lançamento, a que entrou na agenda para "alinhar rapidinho" e durou cinquenta minutos.
- Relatório. Puxar os números, montar, escrever o que significam, apresentar. É a entrega mais bem paga que ninguém cobra.
- Atendimento avulso. Mensagem de domingo, print do concorrente, story de última hora, a resposta reescrita três vezes até ficar diplomática.
- Agendamento e conferência. Publicar, checar se subiu inteiro, corrigir o que a plataforma cortou.
Duas semanas de anotação tosca bastam para trocar cada minuto do exemplo abaixo pelo seu.
Exemplo: uma conta de 12 posts por mês. Roteiro e texto a 40 minutos por post somam 8 horas; arte e edição a 50 minutos somam outras 10. Visível: 18 horas.
Agora o resto. Briefing e recontextualização, 2 horas. Aprovação: 12 posts a uma rodada e meia de 15 minutos, 4,5 horas — a média que você observa, não o teto que vai contratar. Reuniões, 2 horas. Relatório mensal, 3 horas. Atendimento avulso, 3 horas. Agendamento e conferência, 1,5 hora. Invisível: 16 horas.
Total: 34 horas, das quais quase metade não é produção. A R$ 117 a hora, o piso dessa conta é R$ 3.978 — R$ 331,50 por post.
Cobrar abaixo desse piso não dá prejuízo contábil: dá um desconto silencioso na sua retirada. É assim que se trabalha o ano inteiro e não sobra nada.
A margem que você soma ao piso tem o tamanho do risco: cliente novo, escopo movediço e prazo curto pedem mais folga que a conta previsível de sempre, e é essa folga que paga o computador que quebra e o mês em que um cliente sai. E quando o piso já passa do que o cliente tem para gastar, corte escopo — menos posts, menos rodadas, relatório trimestral —, não preço.
Passo 3: escreva o escopo — e o que é extra
O escopo decide se o preço do Passo 2 sobrevive ao terceiro mês. Vago, ele é reinterpretado toda semana, sempre para cima. Nomeie, por escrito:
- Quantidade e formato. "12 posts" não informa nada: 8 de feed, 4 reels e 12 stories dá para conferir no dia 30.
- Rodadas de revisão incluídas. Duas por post é um ponto de partida defensável; a terceira existe e é cobrada por hora.
- Prazo de resposta, o seu e o dele. Material aprovado com dois dias de antecedência, ou a data escorrega; os dias e horários em que você responde, ou o contrato é de plantão.
- Reuniões, relatório e insumos. Quantas reuniões por mês, com que periodicidade o relatório sai, e o que cabe ao cliente entregar: gravação, acessos, aprovação de pauta.
- A lista do que é extra. Evento, lançamento, tráfego pago, formato novo, post fora do pacote, urgência fora da janela.
O último item é o mais importante e não serve para dizer não: serve para dizer "isso eu faço, e custa". Sem ele, todo pedido vira favor, e favor não é reajustável.
Exemplo: um reels fora do pacote consome 3 horas entre roteiro, gravação e edição. Sobre o custo-hora de R$ 117, o piso é R$ 351.
Passo 4: monte pacotes, não orçamentos avulsos
Orçar do zero a cada conversa queima horas e produz preços incoerentes. Três pacotes resolvem: você apresenta, o cliente escolhe, e a negociação vira escopo, não desconto.
- Presença. Volume menor, uma rodada de revisão por post, relatório trimestral, sem reunião fixa. Para quem só precisa existir com consistência.
- Crescimento. Volume maior, mix de formatos, duas rodadas, relatório mensal com leitura dos números, uma reunião. É o degrau que você quer que seja o padrão.
- Operação. Volume alto, peso em vídeo, planejamento de campanha, prazo de resposta curto, acompanhamento quinzenal. Para quem trata a rede como canal de venda.
Cada degrau muda mais de uma coisa: se muda só a quantidade de posts, você publicou uma tabela por unidade. E cada pacote passa pelo Passo 2 — pacote que ninguém somou em horas é chute com nome bonito.
Passo 5: combine reajuste desde o começo
Reajuste combinado na assinatura é cláusula; pedido no meio do caminho é conversa difícil. Três linhas resolvem.
Índice e data. Um índice público aplicado na data de aniversário do contrato: o aumento deixa de ser seu e passa a ser do índice.
Revisão de escopo. Uma data por ano para confrontar a lista do Passo 3 com o que virou rotina. Se a entrega cresceu, o preço acompanha, e a lista antiga mostra o que mudou.
Gatilhos fora do calendário. Mudança permanente de volume, formato novo recorrente, mais um perfil. Escreva quais eventos reabrem a conversa antes que aconteçam.
Exemplo: um contrato de R$ 3.000 por mês, sem reajuste por dois anos, num período de 10% de inflação acumulada, compra ao final o equivalente a R$ 2.727 do primeiro dia. O desconto não foi você que deu: foi o tempo.
Cinco erros que corroem a margem
- Revisão sem limite. "Ajusto até você aprovar" soa generoso e é a cláusula mais cara da proposta: custo ilimitado por definição.
- Escopo que cresce sozinho. "Só um storyzinho", "aproveita e faz um card": cada pedido é barato demais para recusar, e nenhum vira registro. Anote o que você faz de graça: cortesia registrada é argumento na revisão anual; esquecida, vira precedente.
- Nada assinado. Na divergência sobre o que estava incluído, quem não escreveu perde. O contrato também protege o cliente: é onde está o que ele comprou.
- Nenhum controle de horas. Sem elas, o Passo 2 vira ficção no segundo mês.
- Preço congelado. O cliente mais antigo é quem paga o preço mais velho, e só segue assim porque ninguém marcou a data da conversa.
Exemplo: duas rodadas extras por post, a 15 minutos cada, em 12 posts, somam 6 horas por mês. A R$ 117 a hora, R$ 702 mensais e R$ 8.424 no ano — 72 horas que ninguém contratou, quase três semanas faturáveis do Passo 1.
Como acompanhar isso na prática
A aritmética não se perde: perde-se o registro que a alimenta. Três coisas precisam ficar em algum lugar consultável: o contrato de cada conta — quanto vale, o que cobre, quando renova e quando reajusta; a receita e a despesa por conta, que revelam qual cliente dá lucro; e as horas, mesmo grosseiras.
Onde isso mora importa menos do que existir: planilha resolve os primeiros clientes e aperta quando os contratos passam do que a memória cobre. Foi esse problema que me levou a construir o Mesaas — contrato, mensalidade, despesa por cliente e receita recorrente no mesmo lugar em que a entrega acontece (planos).
Isso toca o Passo 2: quando o cliente responde no mesmo lugar em que vê o post, o ajuste fica preso ao material em vez de espalhado em áudios — é o portal do cliente. Quem compara ferramentas tem o recorte em Mesaas ou Aprova Post.
Se você chegou aqui com um número anotado, o guia funcionou. Ele vai estar errado — todo primeiro preço está. Mas errado e escrito se corrige em três meses com dados na mão; certo e chutado nunca existiu.