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Crise à vista no Brasil? O que os dados dizem e como a agência se prepara

O cliente que sai primeiro raramente é o que atrasa. Os fatos de hoje, o que os pequenos negócios fizeram na pandemia e o que fazer esta semana.

Por Equipe Mesaas · 28 de outubro de 2026 · 7 min de leitura

Vista aérea do Parque Ibirapuera com os prédios da Avenida Paulista ao fundo, em São Paulo
Foto: Sérgio Valle Duarte / Wikimedia Commons, licença CC BY 3.0. Fonte

Sabe qual cliente a sua agência corre mais risco de perder se o dinheiro apertar? Minha aposta, e é só uma aposta, não é o que atrasa o pagamento nem o menor da carteira. É o que não consegue enxergar o que você entrega.

Ninguém sabe se vem uma crise em 2027. O que dá para saber são os fatos de hoje: juros altos, crescimento baixo e famílias endividadas. E fatos servem para uma coisa só: você se preparar antes de precisar, não depois.

O que acontece quando o cliente manda "vamos rever os gastos"?

Imagine a Carla, dona de uma agência pequena (uma personagem hipotética, criada para este texto). Numa segunda-feira, a dona da loja de roupas que é cliente dela manda uma mensagem curta: "Estamos revendo os gastos do ano que vem. Dá para a gente conversar?"

Não tem número, nem exigência, nem ameaça. Mesmo assim, a Carla passa a manhã tentando adivinhar o que vem depois. Os resultados do mês estão espalhados em três planilhas. Ela não sabe quanto da receita depende dessa loja. E não tem nenhuma proposta menor na gaveta.

Veja o detalhe: nada nessa história depende de a economia ir mal ou bem. O aperto de um cliente pode vir de um mês fraco de vendas, e não de uma crise nacional. O que muda o final da história é a Carla ter ou não a resposta pronta.

Avenida Paulista com a entrada do metrô em primeiro plano e prédios comerciais ao fundo
Foto: Lukaaz / Wikimedia Commons, licença CC BY 3.0. Fonte

O que os números dizem sobre a economia brasileira agora?

Aqui começa a parte contraintuitiva. Os números de hoje não contam uma história única, e uma das partes parece até contraditória.

O Boletim Focus de 26 de outubro de 2026, do Banco Central, reúne a mediana das projeções de cerca de 172 instituições financeiras:

Indicador2026202720282029
Crescimento do PIB1,80%1,31%1,81%2,00%
Inflação (IPCA)5,19%4,34%3,75%3,50%
Selic no fim do ano13,25%11,75%10,00%10,00%

O PIB projetado segue positivo, mas 2027 é o ano mais fraco da série. A Selic projetada cai a cada ano e, mesmo assim, ainda termina 2028 em 10%. A inflação de 2026, em 5,19%, está acima do teto de 4,50% da meta, segundo a cobertura do Investidor Institucional sobre o Focus.

Crescimento do PIB projetado pelo Focus (% ao ano)

  • 20261,80%
  • 20271,31%
  • 20281,81%
  • 20292,00%
Fonte: Investidor Institucional (Boletim Focus, Banco Central)

Agora a parte que parece contraditória. Segundo a reportagem do Jornal do Comércio sobre a pesquisa da CNC, a inadimplência caiu em setembro, mas as famílias passaram a comprometer mais renda com dívidas:

Indicador (CNC)AgostoSetembro
Famílias endividadas82,0% (recorde da série)81,7%
Famílias com contas em atraso29,9%29,6%

Menos gente atrasando não quer dizer mais folga. Quer dizer que mais gente está pagando, e pagando com uma fatia maior do que ganha. É o tipo de dado que o dono de uma loja não vê no caixa do dia, mas sente no ticket médio.

Dá para saber se vem uma crise?

Não, e quem diz que sabe está apostando. Uma crise é uma queda forte e generalizada da atividade, do crédito e da renda. Uma desaceleração é crescimento menor do que o anterior. As projeções acima não decidem entre as duas, mudam toda semana e foram coletadas antes do segundo turno das eleições.

O que elas mostram é um ambiente em que consumo e investimento ficam mais caros. Isso é raciocínio, não dado: com juros altos e família endividada, o consumidor pensa duas vezes antes de comprar, e o dono do negócio pensa duas vezes antes de investir. É daí que costuma vir o pedido de justificativa para cada real gasto em conteúdo e mídia.

O que fazer hoje: liste os cinco clientes que mais pesam na sua receita e anote ao lado de cada um se o negócio depende de crédito ou de venda parcelada. Esses sentem primeiro.

O que os pequenos negócios fizeram da última vez que o dinheiro apertou?

Aqui vem a informação que mais me surpreendeu ao pesquisar. Na pandemia de 2020, o pequeno negócio não parou de divulgar. Ele mudou de lugar.

A pesquisa do Sebrae com a FGV, publicada em janeiro de 2021, mostrou que 70% das empresas pesquisadas já vendiam por redes sociais, aplicativos ou internet, contra 59% em maio de 2020, segundo o resumo no Diário do Comércio. E o canal preferido não foi o site próprio:

Canais de venda online dos pequenos negócios (% de quem vendia online)

  • WhatsApp84%
  • Instagram54%
  • Facebook51%
  • Site próprio23%
Fonte: Diário do Comércio (pesquisa Sebrae/FGV)

Quando o dinheiro aperta, o cliente não corta o que enxerga trazendo venda.

O negócio foi para o canal barato e direto, onde a venda acontece na conversa. A leitura para a agência é simples: quem prova que o conteúdo gera mensagem e venda nesses canais tem um argumento muito melhor do que quem mostra curtida.

Um aviso de transparência: procurei casos de agências brasileiras que cresceram em crises passadas, com números verificáveis, e não achei nenhum com fonte confiável. Prefiro deixar de fora a inventar um exemplo.

Como seria a conversa da Carla se ela estivesse preparada?

Volte à segunda-feira da Carla. A mesma mensagem chega, "vamos rever os gastos". Só que agora ela abre uma pasta e responde em dez minutos: aqui está o que o conteúdo trouxe no último mês, aqui o que eu recomendo manter, e aqui uma versão menor do pacote, se o orçamento precisar diminuir.

A conversa que seria de defesa vira uma conversa de planejamento. Para chegar nesse ponto, quatro coisas precisam estar prontas antes:

Saber quanto cada cliente pesa

Se um único cliente responde por uma parte grande do faturamento, a saída dele muda o mês inteiro. Defina o seu limite, por exemplo nenhum cliente acima de um quarto da receita (um critério meu, não uma regra), e trabalhe para chegar lá com contratos novos, não com cortes.

Ter caixa para respirar

Some os custos fixos de um mês (equipe, ferramentas, impostos) e decida quantos meses a agência aguenta sem receita nova. Três meses é um ponto de partida comum de planejamento. Também é sugestão minha.

Reportar o que o cliente entende

Relatório de curtidas não segura contrato. Mostre conversas iniciadas, orçamentos pedidos e vendas atribuídas. Se o cliente ainda não mede isso, ajude a montar uma forma simples de contar.

Ter o plano B escrito

Quando o cliente quer cortar, a alternativa ao desconto é um escopo menor, com os pilares que mais geram resultado. Deixe pronta uma versão enxuta de cada pacote, com o que sai e o que fica.

O que fazer esta semana para chegar preparada?

Você não precisa resolver tudo de uma vez. Três passos cabem em uma semana:

  1. Faça a lista dos cinco clientes que mais pesam e marque os que dependem de crédito ou venda parcelada.
  2. Pergunte a cada cliente de varejo ou serviço quantas vendas do último mês começaram numa conversa de WhatsApp ou de Direct. Se ele não sabe, essa é a primeira métrica a montar.
  3. Mande ao cliente de maior risco uma mensagem antes que ele precise mandar a dele: "Preparei um resumo do que o conteúdo trouxe nos últimos 30 dias e uma proposta para os próximos meses. Podemos conversar 20 minutos esta semana?"

Quem chega primeiro com os dados escolhe o tom da conversa. Quem espera a mensagem do cliente aprende o tom dele.

Fontes

  1. Focus reduz IPCA, PIB e câmbio de 2026, mas Selic fica estável, Investidor Institucional (Boletim Focus, Banco Central), 26 de outubro de 2026
  2. Inadimplência cai em setembro, mas famílias comprometem mais renda com dívidas, Jornal do Comércio (pesquisa CNC), 09 de outubro de 2026
  3. Pesquisa aponta que 70% das empresas recorreram às redes sociais na pandemia, Diário do Comércio (pesquisa Sebrae/FGV), 13 de janeiro de 2021

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